Levantamento com base na Rais aponta que cerca de 82% dos vínculos formais no estado possuem jornada superior a 40 horas semanais. Comércio e indústria lideram a lista dos mais afetados.

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Legenda: Conforme dados da Rais 2025, 195,3 mil vínculos de emprego com jornadas acima de 40 horas semanais eram no setor do comércio varejista. Foto: Fabiane de Paula.
A transição para o fim da tradicional escala 6×1 promete mexer profundamente com o mercado de trabalho cearense.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), estruturados a partir da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), indicam que 82,5% dos vínculos celetistas ativos no Ceará — o equivalente a mais de 1,1 milhão de contratos — contam com jornadas semanais superiores a 40 horas e serão diretamente alcançados pelas novas regras de reestruturação de horários.

A mudança ocorre na esteira da Emenda Constitucional que encerra o modelo de seis dias de trabalho seguidos por apenas um de descanso, impondo a obrigatoriedade de dois dias de repouso semanal remunerado e o enxugamento progressivo do teto de horas.

Como a implementação será gradual — com o limite recuando primeiro para 42 horas semanais e, posteriormente, fixando-se em 40 horas —, empresas de diversos segmentos já iniciam o planejamento para redesenhar escalas e turnos de atendimento.

Os setores mais pressionados no estado

O impacto tende a ser sentido com mais força nas atividades que historicamente operam no limite do teto tradicional de 44 horas semanais ou que dependem de funcionamento contínuo.

  • Comércio Varejista: Lidera o ranking em números absolutos no Ceará, concentrando cerca de 195,3 mil vínculos com carga acima de 40 horas (o que representa 95% do total do setor). A alta rotatividade de funcionários e a necessidade de abertura aos finais de semana colocam supermercados e lojas entre os maiores desafios logísticos.

  • Indústria de Calçados e Vestuário: Setores altamente intensivos em mão de obra no estado registram proporções massivas de contratos acima do novo limite, alcançando marcas expressivas como 98,8% na fabricação de calçados e 98,4% na confecção de artigos do vestuário.

  • Construção Civil: Com 97,3% dos vínculos operando sob jornadas estendidas, a construção de edifícios também figura na linha de frente das adaptações operacionais.

Desafios operacionais e econômicos

Especialistas apontam que a readequação exigirá cautela, sobretudo para micro e pequenas empresas com margens de lucro mais apertadas. Economistas avaliam que a necessidade de reorganização das equipes pode elevar custos operacionais a curto prazo, exigindo maior investimento em automação e eficiência de processos para compensar a diminuição das horas trabalhadas sem que haja redução salarial.

Por outro lado, defensores da medida ressaltam que o avanço tende a beneficiar a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores, além de abrir espaço para maior qualificação profissional no tempo livre adicional — fatores que, a médio e longo prazo, podem impulsionar ganhos reais de produtividade na economia cearense.

Diário do Nordeste

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