Tomaz Maranhão e Gabriel Ferreira celebraram na quinta-feira (25) o aniversário de 23 anos. Apesar de serem irmãos gêmeos, foi a primeira vez que eles comemoraram juntos a data de nascimento. Eles haviam sido separados dias após o nascimento e colocados para adoção pelos pais, que não tinham condições de criá-los.

Tomaz Maranhão continuou vivendo em Fortaleza, no Ceará, estado onde os dois nasceram. Gabriel Ferreira foi criado por uma família em Uberaba, em Minas Gerais. Vivendo a quilômetros de distância, os dois cresceram com uma paixão em comum: a fotografia.

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Foi uma foto que voltou a unir os dois, depois de 23 anos. Após descobrir o irmão e se conheceram a distância, Tomaz fez uma visita surpresa a Gabriel em Uberaba, onde celebraram o aniversário juntos nesta semana.

A vida em fotografias

Gêmeos idênticos não se conheciam se encontram pela primeira vez desde o nascimento, em conversa virtual — Foto: Arquivo pessoal

Gêmeos idênticos não se conheciam se encontram pela primeira vez desde o nascimento, em conversa virtual — Foto: Arquivo pessoal

“Desde a primeira foto que eu tirei aqui, nessas árvores, eu vi que a fotografia poderia ser uma coisa diferente na minha vida. Podia ser uma forma de eu demonstrar talvez um sentimento”, relata Gabriel sobre o Parque das Barrigudas, em Uberaba.

A infância dele, como a de quase todo mundo, está guardada em fotos. A do Tomaz também, em Fortaleza, a 2,6 mil quilômetros de Uberaba. “Quando eu estava com angústia, eu usava a fotografia pra dar vazão à angústia e me expressar”, afirma Tomaz.

“Desde os 14 anos ele é muito dedicado a fotos. Eu comprei uma câmera pra ele, ele ficou batendo foto, ele ia pra aniversário pra filmar, pra casamento pra filmar…”, conta a mãe de Tomaz, Socorro Maranhão.

“Desde que eu conheço o Tomaz — isso faz uns três anos –, tudo que ele faz na vida dele tem relação com a fotografia, ele tem uma maneira de se conectar com o mundo, com as pessoas, com o trabalho, com o que for através da fotografia”, diz a amiga Kely Pereira.

Atualmente Tomaz trabalha no Museu de Fotografia de Fortaleza. Entre outras coisas, ele acompanha projetos e faz produção das exposições. Circulando pelo museu, ele convive com cerca de duas mil obras de grandes fotógrafos do Brasil e do mundo. Mas ele teve a vida mudada por uma pequena foto caseira, velha e desbotada.

Início da busca

Tomaz tinha como pista para encontrar o irmão a foto de Gabriel com a mãe adotiva, no aniversário de um ano — Foto: Arquivo pessoal

Tomaz tinha como pista para encontrar o irmão a foto de Gabriel com a mãe adotiva, no aniversário de um ano — Foto: Arquivo pessoal

Os cearenses Tomaz e Gabriel foram separados ainda bebês, já que a mãe biológica, moradora da periferia de Fortaleza, não tinha condições de criá-los. O primeiro foi entregue a Maria do Socorro aos 15 dias de vida. O segundo, levado com sete meses por uma família de Uberaba, em Minas Gerais. Desde então, não se viram mais.

A mãe adotiva revelou a Tomaz sobre a adoção quando ele tinha cinco anos, falando, inclusive, sobre a existência do irmão gêmeo. A esperança do encontro surgiu aos 16, após a mãe biológica entregar-lhe uma fotografia do primeiro aniversário de Gabriel com a família mineira.

“Aí ele entrou em busca do irmão, mas, inclusive, não teve sucesso. Ele passou muito tempo procurando Gabriel, mas não encontrava. Ele chorava bastante, muitas noites, eu acordava, e ele estava chorando”, lembra Maria.

A foto do aniversário de um ano do irmão, adotado em Uberaba, foi entregue há sete anos pela mãe biológica dos meninos. “Ela deu a foto do Gabriel pra ele. Aí ele entrou em busca do irmão dele”, conta a mãe, Socorro.

“Eu também fui criado sempre sabendo que eu era adotado e que eu tinha um irmão gêmeo”, esclarece Gabriel. O que Gabriel não sabia era que Tomaz procurava por ele, buscando nas redes sociais por sete anos, sem sucesso. Até que no início deste mês Tomaz percebeu que tinha outra pista para achar o irmão.

“Eu já sentia muita falta, mas no dia primeiro de junho foi marcante, essa falta foi mais dolorosa. Passei mal, senti muita angústia e lembrei que na foto que eu tinha recebido tinha o nome da mãe dele. Encontrei o perfil deles no dia primeiro, mas não entrei logo em contato porque me vieram várias questões: se ele sabe, se a mãe tinha contado.”

“Fui passando e olhando as fotos até que encontrei uma foto dele. Nossa, era eu! Eu olhei e disse: ‘Meu Deus! Sou eu’.” Depois disso, Tomaz contou a descoberta para familiares e amigos, e foi em busca de entrar em contato com o irmão gêmeo.

O reencontro

Gêmeos cearenses durante encontro em Uberlândia — Foto:  Carol Polato/Arquivo pessoal

Gêmeos cearenses durante encontro em Uberlândia — Foto: Carol Polato/Arquivo pessoal

Por meio de redes sociais, ele enviou uma mensagem a Gabriel: “Nasci em 1997 e, aos 15 dias de vida, fui separado de um ser que faz parte de mim. A minha vida foi por uma busca.” Eles passaram então a se falar todo dia pela internet, ainda separados por 2,6 mil quilômetros de distância. Mas Tomaz ainda tinha planos para reduzir essa distância.

A Carol, mulher do Gabriel, e o Tomaz tinham combinado tudo com um terceiro fotógrafo, para promover um encontro surpresa. “Ele mandou uma mensagem pro Gabriel dizendo que tinha um trabalho fotográfico pra receber uma pessoa lá no aeroporto. E o Gabriel acreditou nessa história. Então pra ele, ele estava [indo ao aeroporto, onde encontrou o irmão] a trabalho”, explica Carol.

Eles se encontraram na noite de quarta-feira (24), no aeroporto de Uberlância. “Na hora em que eu vi ele, parecia que eu estava numa montanha russa. Deu um frio na barriga! Abracei ele, dei o abraço que eu sempre sonhei em dar no meu irmão, desde criança, desde a infância.”

No dia seguinte ao primeiro encontro dos gêmeos, dona Vanda, a mãe do Gabriel, recebe Tomaz, o outro aniversariante do dia. Os dois irmãos têm finalmente a primeira festa de aniversário juntos. O encontro repercutiu pela cidade de Uberaba.

Durante a festa e comemoração, Tomaz pensou ainda em outra pessoa, que não estava presente, a mãe biológica. “O ato de ela me entregar pra adoção foi um ato heroico, um ato de uma mãe que realmente ama o filho, que quer ver ele bem. Ela entregou o próprio filho pra ele poder sobreviver.”

Separados durante 23 anos, eles agora se divertem juntos, com direito a andar com as roupas, os óculos e as máscaras iguais, como os gêmeos costumam fazer numa infância que os dois não tiveram.

“Todo mundo tem um sonho material, um sonho de alcançar, objetivos, mas esse sonho que eu tinha de conhecer meu irmão gêmeo está muito além disso”, diz Gabriel.

“Eu encontrei aquilo que me fazia falta a vida inteira, que era ter ele, poder conhecer, eu me sinto completamente realizado, aos 23 anos de idade. O que eu mais consigo falar nesse momento é que eu me sinto realizado”, responde Tomaz.

Nordeste Notícia
Fonte: G1

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