É até politicamente mais correto defender a história do Queen como o grande encontro de quatro músicos. Em suas mais de duas horas de duração, o longa Bohemian Rhapsody, de Bryan Singer (com uma “ajuda” de Dexter Fletcher), tenta fazer jus a Brian May, Roger Taylor e John Deacon – até porque os dois primeiros estão entre os produtores do longa-metragem. Só que, como sempre, é tudo sobre Freddie Mercury. Ou, no caso, sobre Rami Malek e o garoto que nasceu em Zanzibar como Farrokh Bulsara e viria a se tornar uma das maiores estrelas do rock, da música e do mundo.

Bohemian Rhapsody começa em 1970, quando um dentuço e exótico imigrante se aproxima de May (Gwynlim Lee) e Taylor (Ben Hardy), respectivamente guitarrista e baterista da banda Smile. Aproveitando uma brecha no grupo, Freddie Bulsara se convida para liderar os vocais da equipe, que pouco depois receberia ainda o baixista John Deacon (Joseph Mazzello) e o nome pelo qual ficou conhecida para sempre: Queen. A partir daí, a obra detalha a vida do agora Freddie Mercury, que deixa de ser um carregador de malas no Heathrow, um dos aeroportos de Londres, para seguir sua vocação de artista.

Por ser um personagem tão conhecido mundialmente e tão coberto de maneirismos, Freddie Mercury era um desafio a mais para o talentoso Rami Malek. Qualquer excesso soaria paródia, imitação barata. O mérito do filme e do ator, então, é se debruçarem mais sobre a persona íntima do cantor, o que constrói uma personalidade muito mais tridimensional a ele. Todo mundo conhece Freddie Mercury no palco, com as roupas quase tão extravagantes quanto o gestual. A solidão do rapaz que parecia ter conquistado tudo é algo que dificilmente chegava ao público. Rami Malek mergulha nessa noção em um filme que, por sorte, dribla a tendência ao melodrama.

Existem três “Freddies” diferentes brigando por todo o longa e o ator norte-americano parece ter noção dos limites de cada um. Há Farrokh Bulsara, menino nascido na Tanzânia de família parsi (persas que imigraram para a Índia). Ali há uma relação difícil com os pais e o desejo por abraçar o mundo. É o Freddie de sonhos. Há, claro, o Freddie do palco. Extravagante, exagerado, afetado, de sexualidade pulsante. É ele quem se aproxima, briga e ama os amigos da banda. E há o outro Freddie, aquele solitário, em busca de laços com a namorada/esposa Mary (Lucy Boynton) ou com alguém que o faça não se sentir tão só. A atuação de Rami consegue ligar esses três pontos em volta do desejo único do personagem por aceitação. No fim das contas, é tudo sobre família.

Um dos pontos mais precisos do filme é na relação com a aids. Se em 1985 o tema era tabu e a infecção era uma sentença de morte, hoje o Hiv é uma condição de saúde controlada como muitas. O filme não trata o tema com moralismo ou mesmo sentimentalismo. É uma abordagem contemporânea, muito diferente daquela da época do filme. É, em suma, respeitosa com a forma como Freddie Mercury lidou com a infecção e clara o suficiente para não apagar essa característica do personagem.

Isso tudo, porém, não apaga os problemas do filme. Irregular, aliás, talvez seja o termo mais preciso para definir a obra. Uma introdução de uma ingenuidade brutal, um crescimento no segundo ato e uma tentativa de apoteose povoada por uma checklist musical. O filme parece querer passar, ainda que correndo, por vários pontos famosos do Queen. Há a relação com Mary, a lógica interna de composições de músicas, a bissexualidade, as brigas com todo mundo, as festas sem limites, a infecção pelo Hiv, o show histórico no Live Aid. Há até uma construção de um vilão maquiavélico, algo no mínimo curioso para uma cinebiografia. E nesse meio tempo uma tentativa de tocar o máximo de hits possível para não desagradar os fãs. Bohemian Rhapsody, Radio Ga Ga, We Will Rock You, I Want To Break Free, Love of My Life e várias, várias outras.

Se no início o roteiro parece não saber se vai contar o romance entre Mary e Freddie ou os bastidores da criação de parte das músicas, aos poucos o filme se encontra no senso de humor de May-Taylor-Deacon. É uma forma de vaticinar o ego do vocalista do Queen e não fazer com que um personagem tão denso quanto Mercury soe insuportável – apesar de que ele provavelmente o era. Talvez pelos problemas da produção – o diretor Bryan Singer foi demitido antes do fim das filmagens -, Bohemian Rhapsody parece estar sempre lutando contra si mesmo. Mas o resultado acaba mais positivo que negativo. E é bom agradecer a Rami Malek por isso. Produtores, Brian May e Roger Taylor devem ter entendido antes de todo mundo que, pelo menos desta vez, o Queen tem um protagonista.

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ÁLBUNS OFICIAS do Queen foram lançados com Freddie Mercury, incluindo o póstumo Made in Heaven

 

82 mil

PESSOAS viram o Queen no Live Aid. O show abriu com Bohemian Rhapsody

 

O BAIXISTA

Quase a tradução do clichê do baixista discreto, John Deacon (à esquerda) foi o último membro a entrar no Smile/Queen. Engenheiro elétrico por formação, Deacy, como era conhecido, é autor de sucessos como I Want to Break Free e Another One Bites the Dust”. Dos três membros do Queen vivos, Deacon é o mais recluso, preferindo se dedicar à família do que tocar com os ex-colegas. No filme, é interpretado por Joe Mazello (acima).

O GUITARRISTA

Astrofísico com PhD no Imperial College de Londres, o músico Brian May (foto maior) era originalmente guitarrista da banda Smile, que originou o Queen. É compositor de sucessos como We Will Rock You, The Show Must Go On e Who Wants To Live Forever. Conhecido pela inseparável cabeleira, May é interpretado no longa pelo ator britânico Gwilym Lee (foto pequena).

A VOZ

Uma das personalidades mais reconhecidas da música mundial, Freddie Mercury nasceu em 1946 em Zanzibar e morreu em 1991 em Londres. Mercury era vocalista e tecladista do Queen e compôs músicas como Bohemian Rhapsody, Somebody to Love, We Are the Champions e Don’t Stop Me Now.

O BATERISTA

Quase a tradução do clichê do baixista discreto, John Deacon (à esquerda) foi o último membro a entrar no Smile/Queen. Engenheiro elétrico por formação, Deacy, como era conhecido, é autor de sucessos como I Want to Break Free e Another One Bites the Dust”. Dos três membros do Queen vivos, Deacon é o mais recluso, preferindo se dedicar à família do que tocar com os ex-colegas. No filme, é interpretado por Joe Mazello (acima).

Nordeste Notícia
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