Morto há exatamente um ano, Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017) sempre carregou na obra o peso da cabeça inquieta do artista. Anunciado nos versos iniciais da letra de Todo sujo de batom (Belchior, 1974), o peso dessa cabeça é que deu relevância ao cancioneiro autoral do cantor, compositor e músico cearense. Esse peso transparece em boa parte do repertório dos seis álbuns que ganham definitivas edições em CD na caixa Tudo outra vez, idealizada e produzida para a gravadora Warner Music pelo jornalista Renato Vieira.

Recém-posta no mercado fonográfico com tiragem inicial de 700 cópias (às quais já foram acrescentados os 500 exemplares da segunda fornada), a caixa honra o legado de Belchior pelo capricho das edições. O som dos álbuns está tinindo por mérito de Ricardo Garcia, responsável pela exemplar remasterização dos discos.

Além de ter feito questão de convidar Garcia para cuidar do som, Vieira escreveu textos informativos sobre o contexto de cada álbum e cuidou para que todas as fichas técnicas e todas as letras das músicas fossem transcritas (por João Antonio Franz) para serem reproduzidas nos CDs juntamente com as artes gráficas dos LPs originais. Já raro na indústria fonográfica, esse minucioso trabalho de reconstituição dos créditos e das artes valoriza as edições juntamente com as faixas-bônus (estas em maioria já lançadas em 2017 na coletânea Pequena mapa do tempo, também produzida por Vieira para a Warner Music).

Contracapa da caixa 'Tudo outra vez', de Belchior (Foto: Divulgação / Warner Music)

Contracapa da caixa ‘Tudo outra vez’, de Belchior (Foto: Divulgação / Warner Music)

O apuro é perceptível inclusive nas restaurações das capas, contracapas e encartes – trabalho confiado a Leandro Arraes. Mesmo que exclua a obra-prima da discografia de Belchior (Alucinação, álbum de 1976 reeditado em 2016 na caixa Tons, produzida pela Universal Music sob a supervisão do mesmo Renato Vieira), a caixa Tudo outra vez reapresenta parte essencial da obra fonográfica de Belchior e corrige distorções. Uma delas é a que atribui ao primeiro álbum do cantor, Belchior (Chantecler, 1974, cotação * * * * 1/2), o equivocado título de Mote e glosa.

Oficialmente intitulado Belchior, este álbum de 1974 flagra o artista ainda em estado bruto, com mix de regionalismo nordestino, folk e poesia concreta em repertório embalado com arranjos orquestrais, como mostram as audições do tema instrumental Máquina I, da gravação original de Todo sujo de batom e de Passeio, música regravada em 2017 com mais delicadeza e beleza pela cantora Amelinha em disco em tributo a Belchior produzido por Thiago Marques Luiz.

Segundo dos seis álbuns da caixa, Coração selvagem (WEA, 1977, cotação * * * * 1/2) já mostra Belchior após a explosão nacional do álbum Alucinação. A produção de Marco Mazzola – que iniciava na então recém-inaugurada filial brasileira da gravadora WEA a escalada que o levaria a galgar o posto de produtor fonográfico mais bem-sucedido dos anos 1980 ao lado de Liminha – formatou o cancioneiro do compositor com apelo pop que soou mal para críticos puristas da época.

O fato é que, ouvido 41 anos depois nessa edição primorosa, Coração selvagem ainda bate com força, inclusive pelo poder atemporal de repertório que inclui Coração selvagemTodo sujo de batom (na melhor gravação dentre todas as abordagens desta canção por Belchior), Paralelas (1975) – música que ganhava o primeiro registro do autor, dois anos ter sido lançada em disco da cantora Vanusa – e Galos, noites e quintais (em gravação que explicita a pegada pop de Mazzola).

A atual edição do álbum Coração selvagem incorpora ao repertório a censurada versão original de Como se fosse o pecado, gravada para o disco de 1977, mas arquivada pelo veto federal. A música ressurgiria com outro arranjo no álbum seguinte de Belchior, Todos os sentidos (WEA, 1978, cotação * * *), o segundo do cantor formatado por Mazzola na WEA.

Desta vez, o produtor pesou mais a mão na batida tecnopop, enchendo de teclados músicas como Divina comédia humana, destaque de repertório no qual Belchior já começava a dar leves sinais de cansaço como compositor. Tanto que, como cantor, o popstar já posava de símbolo sexual para atrair o público feminino. Contudo, o principal problema do disco é mesmo a sonoridade. Belchior chegou até a flertar com o som da disco music em faixa, Corpos terrestres, dividida com o grupo As Frenéticas, então no auge da trajetória fugaz.

O cantor Belchior (Foto: Divulgação)

O cantor Belchior (Foto: Divulgação)

Belchior deve ter detectado o excesso, mas não chegou a corrigir o rumo no álbum seguinte, Belchior – Era uma vez um homem e seu tempo(WEA, 1979, cotação * * * 1/2), produzido por Guti Carvalho com o mesmo apelo pop dos dois álbuns anteriores. O hit radiofônico Medo de aviãosalvou a pátria comercial, mas, se as letras ainda procuravam traduzir o tempo do homem sul-americano que vivia no Brasil ditatorial dos anos 1970, as melodias já soavam menos inspiradas no confronto com a pregressa produção autoral do compositor.

Comentário a respeito de John foi outro destaque desse repertório menos imponente. Álbum seguinte, também produzido por Guti Carvalho, Objeto direto (WEA, 1980, cotação * * *) reverberou a sensação de que a verve do melodista já não acompanhava a pulsão do poeta humanista que radiografava os anseios do homem na selva das cidades.

Título mais valioso dentre os seis álbuns da caixa Tudo outra vez, pelo fato de até então nunca ter sido editado em CD, Paraíso (WEA, 1982, cotação * * 1/2) refaz a conexão de Belchior com o produtor Guti Carvalho, mas o vigor do compositor – como melodista – já vinha se esvaindo, por mais que o letrista continuasse antenado. Tanto que Paraíso era o primeiro disco (até então) em que Belchior também se aventurava como intérprete de obras alheias.

Mas tudo foi em vão. O rock já dava um blitz na MPB e Belchior começava a soar deslocado no próprio tempo. Não é por acaso que Paraíso – cuja edição em CD apresenta som mais límpido do que o do LP de 1982 – encerrou melancolicamente a passagem de Belchior pela gravadora WEA.

A partir de então, o cantor ensaiaria alguns retornos, mas passaria a viver do glorioso passado da década de 1970. Até sumir e virar o enigma que ninguém ainda decifrou um ano após a definitiva saída de cena do artista, em que pesem as pistas contidas nas letras das músicas desses seis álbuns reeditados de forma primorosa na caixa Tudo outra vez com todo o peso da cabeça e da obra de Antonio Carlos Belchior. (Cotação da caixa: * * * * *)

Nordeste Notícia
Fonte: G1